Impacto do autoexame mamário sobre tamanho tumoral, estadiamento e mortalidade por câncer de mama...

Atualizado: Set 18

Impacto do autoexame mamário sobre tamanho tumoral, estadiamento e mortalidade por câncer de mama na Tailândia


Thaineva V et. al.

Breast J 2020; 26:822-4

Comentários: Alfredo Carlos S. D. Barros


O câncer de mama (CM) tem incidência crescente na Tailândia e a maioria das pacientes apresenta tumor localmente avançado ao diagnóstico. Nem todas as mulheres têm acesso à mamografia, e o objetivo deste trabalho foi pesquisar o benefício do autoexame (AE) das mamas.

Foram investigadas 1.906.697 mulheres (de 30 a 70 anos) que participaram de um programa de conscientização sobre CM. Foi empregada apostila ensinando o AEM e disponibilizando uma agenda-boletim para anotação do autoexame, a ser preenchida mensalmente. Agentes de saúde voluntários nas pequenas cidades distribuíram as apostilas e incentivaram a população para a prática regular do AE.

As participantes foram seguidas de 2012 a 2017. Aquelas que fizeram AE pelo menos uma vez cada 2 meses e anotaram regularmente no caderno, no ano anterior ao diagnóstico de CM, foram classificadas como praticantes regulares.

Foram diagnosticados 2.956 (0,2% da amostra) casos de CM, com taxa de incidência média nos 5 anos de acompanhamento de 31 por 100.000 mulheres/ano. Morreram por CM 176 mulheres (176 / 2956: 5,9%).

Nódulo (97,9%), dor (12,8%) e assimetria (7,9%) foram os principais sinais o aprofundamento no diagnóstico. Casos suspeitos, devido a alterações no AE foram encaminhados para exames de imagem e se necessário biópsia.

A tabela abaixo mostra os resultados verificados e comparados entre as praticantes regulares e não-regulares de AE.


Este estudo mostrou aderência da população ao programa de AE, provavelmente devido ao trabalho dos voluntários e ao uso da apostila para treinamento e anotações.

Foi concluído que a prática regular do AE foi efetiva para o diagnóstico precoce de câncer de mama na Tailândia.

Comentários

O valor do AE é tema controverso, acredito que por falta de pesquisas bem conduzidas e pelas diferenças de acesso à mamografia entre as populações de países desenvolvidos e em desenvolvimento. No Brasil, país em desenvolvimento, existe ainda um complicador importante, a heterogeneidade de condições dentro do mesmo país: existem cidades e estados onde a mamografia é disponível e outros onde faltam equipamentos.

Críticos do AE geralmente se reportam a um estudo randomizado chinês, uma coorte dividida em 2 grupos – quem fez autoexame e quem não fez – e que não observou diferença de tamanho do tumor ao diagnóstico (em torno de 3 cm em ambos os grupos) e de mortalidade. Ocorre que nesta experiência não se esclareceu na publicação a regularidade e a aderência das chinesas ao AE, provavelmente inadequadas, visto que a média de tamanho tumoral ao diagnóstico foi equivalente nos grupos. Além disto, este programa estava dissociado totalmente da mamografia, já que as pacientes que notaram alterações eram encaminhadas diretamente para biópsia cirúrgica por médicos generalistas, o que levou inclusive a elevado número de cirurgias desnecessárias.

O trabalho tailandês mostrou que as mulheres que praticaram o AE regularmente, tiveram diagnóstico mais precoce de CM e menor mortalidade pela neoplasia, com diferença estatística significante. Isto vai de acordo com outras publicações com populações com dificuldade de acesso à mamografia.

Porém, a importância do AE é mínima em quem faz mamografia rotineira. Enquanto esta última identifica tumor a partir de 1 mm, o AE descobre a partir de 1-2 cm. No Brasil, nas pacientes diferenciadas de nossos consultórios, o AE contribui basicamente para estimular a atenção e a conscientização das mulheres para com as suas mamas. No entanto, penso que para populações desassistidas de mamografia, o AE vale a pena. O valor do AE não deve ser estimado genericamente e, sim, ser avaliado em cada região.

Pontos fortes do estudo: grande casuística, aderência da população e mamografia e biópsia dos casos suspeitos.

Ponto fraco: estudo de nível de evidência baixo, nível III (estudo observacional caso-controle).

Leitura complementar recomendada

· Thomas DP, Goo DL, Ray RM, et al. Radomized trial of breast self-examination in Shangai: final results. J Natl Cancer Inst 2002; 94:1445-57.

· Basegio DL, Corrêa MPA, Kuiava VA, et al. The importance of breast self-examination as a diagnostic method of breast cancer. Mastology 2019; 29:14-9.

· Gür K, Kadioglu H, Sezer A. Breast cancer risks and effectiveness of BSE training among women living in a district of Istanbul. J Breast Health 2014; 10:154-60.

· Le Geyte M, Mant D, Vessey MP, Jones L, Yudkin P. Breast self-examination and survival from breast cancer. Br J Cancer 1992; 66:917-8.

· Albeshan SM, Hossain SZ, Mackey MG, Brennan PC. Can breast self-examination and clinical breast examination along with increasing breast awareness facilitate earlier detection of breast cancer in populations with advanced stages at diagnosis? Clin Breast Cancer 2020; 20:194-200.

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